É agora José! A pedagogia do arco-íris de Tia Dag

Ressignificando a estrofe da poesia de Carlos Drummond de Andrade, a fundadora da Casa Zezinho se encontra com o Path Amazônia e mostra a importância em criar ações na periferia que respeitem a perspectiva do morador.




Na década de 1970, nos bairros mais vulneráveis do Brasil, especialmente na zona sul de São Paulo, a violência crescia ao ponto da taxa de homicídio ser comparada à de uma pandemia, além disso, o país vivia sob o regime de uma ditadura civil e militar onde grupos de extermínio eram assumidamente existentes e muito comuns nas regiões mais pobres, só entre 1969 e 1971 esses grupos teriam matado mais de 200 pessoas.


Nesse cenário assustador estava Tia Dag, pedagoga formada pela USP e que nessa época teve a coragem de acolher crianças que eram juradas por grupos de extermínio como esses, em plena ditadura militar. Enquanto ia trabalhar como alfabetizadora de pessoas em diversas favelas da zona sul, Tia Dag começou a perceber que esses grupos ameaçavam matar jovens que tinham de 13 a 14 anos. “Aí rapaz eu não tive dúvida comecei a esconder na minha casa e a minha casa ficou muito pequena para tanta gente.”, explica Dagmar Rivieri, que é uma das convidadas do Path Amazônia e que contou um pouco de sua história transformadora.


Como pedagoga, Tia Dag nunca conseguiu trabalhar em uma escola, segundo ela, não aceitava a forma com que as escolas eram dirigidas e resolveu seguir por outro caminho, trabalhando com filhos de exilados políticos. Em sua casa acolheu jovens refugiados das ditaduras chilenas e argentinas, do Líbano, do muro de Berlim e jovens vindos das favelas brasileiras.


Com o tempo nesse trabalho percebeu que precisava aumentar o espaço para agregar todas as crianças que apareciam, a partir daquele momento nasceu a Casa Zezinho. O nome vem da poesia de Carlos Drummond de Andrade “E agora José?”, que de acordo com Tia Dag expõe um Brasil onde o consumo é quem define as pessoas. “A própria poesia fala que a festa acabou, o povo sumiu, aí eu botei uma exclamação, “É agora José!”, uma afirmação", conta Dagmar, que já esteve entre os 100 brasileiros mais influentes em uma lista promovida pela Revista Época.


Aprendizados com Paulo Freire e a criação da pedagogia do arco-íris


Se estivesse vivo, o autor da "Pedagogia do Oprimido”, Paulo Freire, estaria fazendo 101 anos, seu método pedagógico de alfabetização de adultos é reconhecido mundialmente através do uso da educação como conscientização. Tia Dag foi próxima de Paulo Freire e baseia sua própria pedagogia no método do educador.” Na vivência eu não dava aula para um só chileno, um só peruano, eram trinta crianças, isso serviu de base para que eu, junto a Paulo Freire, trabalhasse com a diversidade, com a inclusão”, conta a pedagoga.


Tia Dag relembra que na época chamou cinco amigas de seus tempos na USP para os trabalhos na Casa Zezinho e começou a criar cursos que fossem baseados nas necessidades dos moradores das favelas, que de acordo com ela, queriam saber datilografar, aprender técnicas de trabalhos como panificação e aprender a ler.


Outro fator importante foi ter ensinado os moradores a se organizarem criando associações, grupos de empreendedorismo e etc. Com o tempo, esse trabalho foi transformando a Casa Zezinho em um ponto de encontro e de transformação do povo na periferia, que ali podia encontrar caminhos diferentes para empoderar-se pessoalmente e profissionalmente.


Em 2019 a ONG Casa do Zezinho completou 25 anos, nesse tempo Tia Dag e todos aqueles que mantêm viva a ação coletiva da Casa já atenderam mais de 20 mil crianças através da educação, da arte, cultura e etc, dando a oportunidade para pessoas alcançarem sua autonomia.


Através da Pedagogia do arco-íris, criada por Tia Dag, as pessoas que entram em contato com seu método são acolhidas a partir de suas perspectivas e sonhos, de acordo com Tia Dag, qualquer processo de acolhimento precisa considerar o que a pessoa acolhida necessita e não ao contrário, a diversidade de visões do mundo e necessidades de cada pessoa devem ser respeitadas.


Para ela, é importante respeitar o outro, assim como sua cultura, pois tudo está relacionado à educação. “A zona sul tem um tipo de periferia, a zona norte outra, a zona leste outra, precisamos respeitar o território do outro, no Brasil os projetos partem de cima para baixo, mas não, os projetos precisam partir de quem vive naquele local.”, completa


A conversa completa de Tia Dag poderá ser vista junto a uma diversidade de conteúdos que estarão disponíveis nos dois últimos dias de outubro, na plataforma digital do Path Amazônia.


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