Relação homem e natureza na fotografia de João Farkas

O fotógrafo e autor dos livros fotográficos “Pantanal” e “Amazônia Ocupada”, contou sobre sua experiência fotografando os contrastes relacionados à ocupação dos biomas amazônico e pantaneiro.




A fotografia nos leva a muitos lugares, pode registrar a história e jogar luz em realidades que antes estavam sob a escuridão. O fotógrafo João Farkas é um dos responsáveis por expor através de suas fotografias as realidades de um Brasil que nem todos sabem que existe.


Farkas é responsável por trabalhos que retratam a relação entre homem e natureza, explorando os contrastes que a ocupação desenfreada de biomas como o da região amazônica e do pantanal. Ele é autor de dois livros fotográficos, “Amazônia Ocupada” e “Pantanal”, também já participou de mais de 40 exposições individuais e coletivas nos principais museus brasileiros, assim como mantém trabalhos em galerias e acervos do exterior.


Em sua conversa no Path Amazônia, João Farkas contou um pouco sobre esses trabalhos e o que aprendeu em mais de dez anos fotografando a floresta amazônica, além de sua vivência com as belezas e contrastes do centro-oeste brasileiro. Cada trabalho produzido por Farkas segue um objetivo que integra outras pessoas ao seu redor, desde moradores das regiões, até sua relação com os fotografados. “Eu sempre me interesso em saber quem são as pessoas e não simplesmente registrar, sempre converso, quero saber mais.”, explica o fotógrafo.


Aprendizados e experiências na Amazônia


O trabalho de Farkas que compõe a obra “Amazônia Ocupada”, foi composto por 200 fotografias que retratam as vivências do fotógrafo entre as décadas de 1980 e 1990, expondo as marcas reais do norte brasileiro, entre espaços de conflitos e convergências, revelando uma Amazônia ocupada por garimpeiros, missionários, grileiros e migrantes, além de retratar a conexão de povos originários de aldeias espalhadas por toda a região.


Nesse período, Farkas pôde compreender a importância do conhecimento local e como esse conhecimento não era absorvido por quem deveria zelar pela Amazônia. “Circulei por dez anos e vi que as políticas para a Amazônia são feitas fora da Amazônia, para criar modelos de apropriação e preservação seria necessário que (estas políticas) viessem da Amazônia para nós e não de Brasília para lá”, explicou Farkas.


Garimpos na Amazônia. Acervo João Farkas / Amazônia Ocupada

A importância desse conhecimento local surgiu em diversas oportunidades no decorrer do tempo em que João Farkas fotografou a floresta amazônica, entre as andanças o fotógrafo se deparou com a destreza de índios que em qualquer situação mais complicada tinham uma solução adequada para sua sobrevivência.


“Um dos personagens mais interessantes que encontrei na Amazônia, um militar, me contou que quando fizeram uma expedição para a Cabeça do Cachorro, um dos territórios mais inacessíveis, com os índios os levando até lá, no caminho foram recebidos com uma chuva monstruosa. Chegando no acampamento, os militares estavam todos molhados, com equipamento e botas cheios de água, já os índios estavam praticamente nus, já tinham feito uma cobertura com folhas de bananeira e acendido o fogo, se esquentando rapidamente.”, lembrou Farkas.


Outro aprendizado que Farkas absorveu em seus anos de fotografia pela Amazônia foi em relação à constante exploração de recursos na região. De acordo com o fotógrafo, os moradores sempre lhe disseram que a vocação local é mineral, que segundo esses mesmos moradores, é pontual.


“Os garimpos são horríveis, poluem e etc, mas existe uma maneira de ocupar e ser sustentável…”, o fotógrafo dá um exemplo sobre uma empresa que explorou uma área e que depois utilizou tecnologia para recompor o rio, “tem como manter a mata e gerar emprego, talvez seja muito melhor do que derrubar tudo, colocar gado por dois ou três anos e tentar fazer uma agricultura derrubando aquilo.”, complementa Farkas.


Encontro com o pantanal, sua urgência ambiental e beleza contrastantes


“Quando eu fui (ao pantanal) levei um susto, o pantanal é muito interessante para o fotógrafo, porque é muito diverso, muito diferente, tem ocorrências geográficas únicas, fiquei muito impressionado com os desastres que já estavam acontecendo com o pantanal, que basicamente estavam ligados à assoreamentos e enchentes”, contou Farkas ao lembrar da primeira vez que viu o pantanal.


O problema do pantanal é antigo, na década de 1970 já havia sinal de assoreamento dos rios, que é quando há acúmulo de areia e sedimentos no leito fluvial. Com o passar dos anos, centenas de fazendeiros, ribeirinhos, trabalhadores e pescadores foram obrigados a abandonar suas casas.


Paisagem pantaneira. Acervo de João Farkas/Pantanal.

Hoje, a situação do pantanal se encontra pior, sendo os dois últimos anos os mais trágicos para a região, onde sua biodiversidade e população estão sendo afetadas pela queima de milhares de hectares, que somados à incêndios na Amazônia e no Chaco, cobriu o país com uma fumaça extensa por mais de 30 dias.


“Todos os rios do pantanal estão assoreando e o pantanal está perdendo esses rios que são como as veias do pantanal, quando começamos esse trabalho há cerca de 6 anos atrás, jamais imaginávamos que teríamos uma precipitação catastrófica como estamos vendo hoje,” conta Farkas.


O fotógrafo conta que hoje prefere seguir um caminho de contemplação para a produção da imagem, ao invés de ficar apenas em sua zona de conforto, que é o fotojornalismo. Ao se encontrar com a paisagem do Pantanal, Farkas constatou dois tipos de abordagem que ao mesmo tempo criavam um contraste repleto de possibilidades para suas fotografias.


“Fui pego por essas duas coisas, de um lado a constatação da magnificência da paisagem, que é espetacular e do outro lado a sensação de urgência”, contou o fotógrafo, enquanto expressava seu sentimento de que naquele momento percebeu a importância ambiental da região. “Mais uma vez o Brasil pode estar destruindo um pedaço importante de sua riqueza, sem ao menos registrar e conhecer profundamente”, completou.


Contraste entre homem e natureza. Acervo de João Farkas/Amazônia.

O trabalho de Farkas no Pantanal se deve ao registro feito por ele em “Amazônia Ocupada”, que tinha o apelo de mostrar a catástrofe ambiental na floresta, mas no caso da região pantaneira o fotógrafo preferiu seguir por outro caminho.


“Se a gente for colocar no ar mais uma má notícia, através de livro, filme, internet, íamos conversar com as pessoas que já se mobilizam, os convertidos para a causa ambiental, mas o pantanal é tão maravilhoso e surpreendente que ficou claro que a gente não conhece”, explica Farkas.


Em sua maioria, o livro “Pantanal” reúne imagens que focam na beleza da região, mas um trecho do livro é dedicado às urgências ambientais. Farkas quis colocar o pantanal no mapa de preocupações do Brasil, mostrando sua beleza e contrastes, sem deixar de expor também todo o trabalho que moradores locais do pantanal estão tendo para encontrar melhores práticas sustentáveis, desde o turismo até a agropecuária.



Acervo de João Farkas/Amazônia,


Documenta Pantanal


O resultado desse trabalho não ficou só no livro, a união de João Farkas com moradores, fazendeiros, artistas, fotógrafos, cientistas, cineastas e até cozinheiros formou o Documenta Pantanal, que serve para divulgar e conservar as belezas naturais do pantanal. O Documenta Pantanal participa de reuniões e ajuda em tomadas de decisões importantes para o desenvolvimento de iniciativas positivas tão importantes para o bioma pantaneiro.


João Farkas é mais um convidado do Path Amazônia, serão dois dias, no último fim de semana de outubro, repletos de conteúdos transformadores como esse papo, mas você já pode receber as novidades até lá se cadastrando através do endereço ondemand.festivalpath.com.br



Nos vemos lá!



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